Mulherzinha, Terra ou Como não somos boas para escrever.

Eight days a week.

sexta-feira, outubro 24, 2008

Domingo

Agora eu quero um homem

que saiba talhar madeira,

que toque violão todas as noites.

Que seja fresco, manso,

que tenha o olhar morno.

Morar no meio do mato

sem nenhum dinheiro e sem mais ninguém -

nadar pelado no rio pela manhã

se querer bem na varanda nas noites de calor.

Agora eu quero um homem

em silêncio

amém.

Quinta

Ela era da velha guarda que ama e desconhece posse, que adora e deixa ir. “Eu amaria alguém que voltasse”, ela disse, “mas que vai a gente nunca sabe se volta, assim como quem fica a gente nunca sabe se ama”. Partindo ele escolheu entre uma incerteza e outra. Ela sabia que ele só ficaria por acomodação ou covardia, ela nunca amaria um covarde e ficaria em paz muito além da falta que sentiria dele. Ele escolheu alistar arriscando matar o que ela conhecia e amava, mas não se arrependeu. A idealidade separa o branco e o preto, como em dias claros que o horizonte separa o céu e a terra. Há tempos os dias não são claros e não há maldade em matar quem alguém que bem – nada é ideal, existir implica em momentos de não-existência. Ele sentia-se longe de casa e desconhecidos passavam-se por amigos unidos pelo mesmo propósito imediato: sobreviver. Pensar nela não fazia bem, mas lembrava a existência de algo bom, bonito e forte além de tanta hostilidade numa terra em que enlouquecer não era possível, mas provável. Tudo é natural. Só muda o ponto de vista. Na abertura mental ele surpreendia-se sendo tudo a mesma Natureza. Alimentava-se de frutos que a deixariam nauseada. Na havia ócio, tempo pra ver beleza ou ser poeta. Não há medo numa mão cheia de areia.

Quarta

Olhando daqui ela parece bem bonita com a canela sob a coxa. O all star de velcro saindo por entre os panos da saia. A blusa de alça, a concentração em fazer sei lá o que ela esteja fazendo. Olhando daqui talvez uma Plumeria, pois ela parece sim uma árvore, completa como um pé de jasmim-manga. Porque mulher deve ser é trabalhadeira e não vaidosa. Nada menos vaidoso que a péssima combinação de cores que ela faz com as roupas, nada mais bonito que ela ali sentada, ali sorrindo. A dignidade que cobre o homem que trabalha sem se aviltar. Ela ali, sendo o que nasceu para ser, sem medo nenhum, só certeza, instinto, natureza. Olhando daqui talvez um ipê amarelo que não é nada além de árvore. Talvez tudo passe pela minha vontade de ser árvore. Ela é bonita como uma árvore do cerrado que se afigura frágil ali toda retorcida, mas que todos sabem que viverá mais que todos nós. Ela lá, sendo o que nasceu para ser, ninguém assim nasce para ser medroso.
Meu rio intermitente vê nela a força das águas que correm sem vacilar todo o ano. E durante o verão transborda.

Segunda

Gosto de ameixas. Gosto sem nenhum pudor, sem nenhuma vergonha. Gosto de ver uma ameixa na cesta de frutas, vermelhinha, redondinha, durinha. Sem pensar, saber o potencial dela ser suculenta. De segurá-la lembrando a participação no meu canto. Sentir o gosto na minha boca, o suco escorrendo pela palma da mão, início do braço. Minha boca. A diferença do sabor/textura na superfície e nas proximidades da semente. A lembrança de um pé de ameixas, um banco de ripas e um montinho de caroços. Mal consigo falar enquanto como, tais são as sensações que me invadem. E somos apenas elas e eu. Não preciso dizer pra ninguém o quanto gosto delas. Assim também é com meu chá de fim de tarde. Um querer bem em silêncio, com admiração e respeito. Sim, gosto de ter ameixas por perto, de come-las. Vem daí parte da minha força, dessas sensações que me fazem saber viva (!) desejando sentir toda vida assim. Quem sou eu se tenho vergonha do que me faz viva? Se só vejo fraqueza no que me faz forte? É o defeito que sustenta meu edifício, C..

Primeira

Talvez tudo passe pela minha vontade de ser árvore

A existência da minha mulher era uma agressão indizível ao meu espaço. Minha natureza incomoda, guardada dentro de madeira gritava em silêncio audível. Antes eu não achava que na consciência fosse embora o veio com o infinito. Agora é depois. Não havia o que ela fizesse, perdesse ou ganhasse, vaidosa ou trabalhando, se banhando, ela sempre era, existia, sia, se ia. Antes eu não achava que consciência. Em minha gaveta guardei a vontade que ela pensasse – havia passado de conselho à agouro. Ela não passava, nada mudava. Embuxada.